segunda-feira, 24 de novembro de 2008

É sempre uma mentira

Ele era mais um iludido com a vida. Contaram pra ele, vejam só, que se podia confiar nas pessoas. E que ele teria amigos, e seria feliz. Que bastava que ele estudasse, teria um futuro digno. Disseram que o amor chega pra todo mundo. Que se ele fosse uma pessoa agradável e cativante, as coisas seriam mais fáceis... Chegaram ao cúmulo de mencionar que ele deveria tratar as pessoas como gostaria de ser tratado. Pois bem.
Mais de uma vez na vida, ele se decepcionou. Porque as pessoas nos decepcionam, é natural. Mas isso não tinham contado pra ele. E ele se decepcionou mais uma vez, com as mesmas pessoas. E aí, é claro, ele começou a se chatear. Mas ele não podia, isso seria não aceitar com naturalidade o que a vida proporciona como aprendizado. Cabeça erguida.
Ele não era feliz. Não dentro do que ele considerava felicidade, e o que é esse sentimento senão aquilo que nós pensamos dele? Ele queria ser livre, poder agir como quisesse sem ser julgado. Mas as regras da vida mais uma vez vinham ensiná-lo que ele não podia fazer assim. Amigos? Depende... Ele tinha, de fato, alguns. Mas não existia equilíbrio. Ele gostava mais de alguns do que estes gostavam dele. Com outros, sentia que era o contrário. Ele só queria um amigo ideal, uma pessoa que gostasse tanto dele quanto ele dela. Afinal, disseram pra ele que ele teria amigos. Amigos, no plural. E ele só queria um.
Pra esquecer disso tudo, ele se dedicou aos estudos. E estudou muito. Era uma promessa brilhante, que ficaria mais uma vez decepcionada quando percebesse que estudar, às vezes, não é suficiente. Era preciso definir os sonhos, as metas, e só então começar a pensar em como realizá-las. E o sonho dele não era aquele.
Quanto ao amor... Ele nem gostava de pensar... Alma gêmea? Uma piada, de muito mau gosto. Ele só queria se sentir amado, se sentir protegido, mas até para isso tinham regras. E ele, que não parecia se encaixar muito bem aos padrões que a vida impunha, se desiludia cada vez mais. E se fechou, sem perceber. Talvez devesse partir dele a iniciativa de achar seu amor. Mas tinham dito que o amor chegava para todos, e ele se achou no direito de esperar.
E ele era agradável e cativante, não havia pessoa que discordasse. Mas as coisas estavam cada vez mais difíceis, outra vez, ao contrário do que ele ouvira. Por ser agradável, acabava sendo subestimado, não recebia a atenção que queria ou que por vezes necessitava. E por ser cativante, sempre julgavam que estava tudo bem. Mas eles não sabiam de nada.
Ele, ao contrário, se preocupava com os outros à sua volta. Assim era, aliás, a forma como ele gostaria de ser tratado. Mas era mal interpretado. Quando tivesse um filho, ele pensava, diria para ele que as pessoas não são confiáveis, nenhuma delas. Que provavelmente não teria um único amigo verdadeiro. Que dificilmente seria feliz ou teria um futuro que o fizesse realizado. Diria que o amor verdadeiro é uma lenda. Ele diria que não importaria a maneira como se comportasse, as coisas não seriam fáceis. E que ele não deveria esperar retorno de nada que fizesse. Talvez o menino chorasse, talvez fizesse escândalo. Mas, ao menos, quando crescesse, não se sentiria enganado pela vida.

4 comentários:

Laila Hallack disse...

É Álvaro, seus textos são SEUS textos... muito bom esse!! Muito mesmo!!!
Não devemos esperar muito da vida, nem das pessoas... mas também devemos continuar acreditando...
Talvez eu seja muito boba,mas mesmo diante de desilusões ou decepções, prefiro continuar acreditando no homem e no seu potencial para ser bom e feliz (quando quer!).

Beijos!!!

Deia C. disse...

Caraca, Álvaro!
Parabéns!
Muito bom esse texto!
Beijos!

Lucas disse...

Gostei
Demorou pra escrever de novo, mas voltou bem
Parabéns
^^
Soube falar de desilusão sem ficar exageradamente dramático e sem colocar o personagem como um coitadinho.

Guido disse...

Parabéns Alvaro, esse foi um dos melhores textos que você já escreveu.

Me identifico muito com o que você escreve, porque você não fica enrolando tanto para dizer alguma coisa. :-)