Ele era mais um iludido com a vida. Contaram pra ele, vejam só, que se podia confiar nas pessoas. E que ele teria amigos, e seria feliz. Que bastava que ele estudasse, teria um futuro digno. Disseram que o amor chega pra todo mundo. Que se ele fosse uma pessoa agradável e cativante, as coisas seriam mais fáceis... Chegaram ao cúmulo de mencionar que ele deveria tratar as pessoas como gostaria de ser tratado. Pois bem.Mais de uma vez na vida, ele se decepcionou. Porque as pessoas nos decepcionam, é natural. Mas isso não tinham contado pra ele. E ele se decepcionou mais uma vez, com as mesmas pessoas. E aí, é claro, ele começou a se chatear. Mas ele não podia, isso seria não aceitar com naturalidade o que a vida proporciona como aprendizado. Cabeça erguida.
Ele não era feliz. Não dentro do que ele considerava felicidade, e o que é esse sentimento senão aquilo que nós pensamos dele? Ele queria ser livre, poder agir como quisesse sem ser julgado. Mas as regras da vida mais uma vez vinham ensiná-lo que ele não podia fazer assim. Amigos? Depende... Ele tinha, de fato, alguns. Mas não existia equilíbrio. Ele gostava mais de alguns do que estes gostavam dele. Com outros, sentia que era o contrário. Ele só queria um amigo ideal, uma pessoa que gostasse tanto dele quanto ele dela. Afinal, disseram pra ele que ele teria amigos. Amigos, no plural. E ele só queria um.
Pra esquecer disso tudo, ele se dedicou aos estudos. E estudou muito. Era uma promessa brilhante, que ficaria mais uma vez decepcionada quando percebesse que estudar, às vezes, não é suficiente. Era preciso definir os sonhos, as metas, e só então começar a pensar em como realizá-las. E o sonho dele não era aquele.
Quanto ao amor... Ele nem gostava de pensar... Alma gêmea? Uma piada, de muito mau gosto. Ele só queria se sentir amado, se sentir protegido, mas até para isso tinham regras. E ele, que não parecia se encaixar muito bem aos padrões que a vida impunha, se desiludia cada vez mais. E se fechou, sem perceber. Talvez devesse partir dele a iniciativa de achar seu amor. Mas tinham dito que o amor chegava para todos, e ele se achou no direito de esperar.
E ele era agradável e cativante, não havia pessoa que discordasse. Mas as coisas estavam cada vez mais difíceis, outra vez, ao contrário do que ele ouvira. Por ser agradável, acabava sendo subestimado, não recebia a atenção que queria ou que por vezes necessitava. E por ser cativante, sempre julgavam que estava tudo bem. Mas eles não sabiam de nada.
Ele, ao contrário, se preocupava com os outros à sua volta. Assim era, aliás, a forma como ele gostaria de ser tratado. Mas era mal interpretado. Quando tivesse um filho, ele pensava, diria para ele que as pessoas não são confiáveis, nenhuma delas. Que provavelmente não teria um único amigo verdadeiro. Que dificilmente seria feliz ou teria um futuro que o fizesse realizado. Diria que o amor verdadeiro é uma lenda. Ele diria que não importaria a maneira como se comportasse, as coisas não seriam fáceis. E que ele não deveria esperar retorno de nada que fizesse. Talvez o menino chorasse, talvez fizesse escândalo. Mas, ao menos, quando crescesse, não se sentiria enganado pela vida.
Ele era inteligente, não restava dúvida. Mas tinha também um defeito: era incapaz de detectar as próprias imperfeições. Seguia todo o manual do bom comportamento na teoria, analisando-se mais do que é natural alguém fazê-lo, pelo puro prazer do espetáculo. Frases de efeito, ele as adorava. É certo que ele acreditava escrever muito bem, aliás, seria difícil descobrir algo em que ele acreditasse ter limitações. Mas as frases vazias de sentido mostravam o quanto ele tentava aparentar algo que não era. Contradições mil, talvez fosse preciso reler para tentar entender afinal qual era a pretensão. Mas não havia paciência para isso.
Ele tinha a mania, a quase extinta mania de escrever. E sua criatividade o fazia escrever sobre tudo, de todas as formas. E sempre se surpreendia com os resultados de sua pena arranhada no pergaminho que ele guardava com carinho. Sem que ele soubesse, as pessoas tinham acesso a seus devaneios, e se identificavam com eles. Ele sempre gostou muito dela, e ela o lia com freqüência.
Ele talvez fosse uma pessoa irritante. Para começar, não sabia seu nome. Cresceu então sem saber de muita coisa. Não sabia o que gostava de comer, nem se gostava de comer. Não sabia o que queria da vida, não sabia como se sentia e nem se sentia alguma coisa.
Ele acordou feliz. Ainda um pouco bêbado da noite anterior, mas feliz. Nem a dor de cabeça e a ressaca o fariam perder seu bom humor. Finalmente tudo estava caminhando bem. Seu sorriso aberto fez com que algumas pessoas o estranhassem. Mas ele definitivamente não estava nem aí. Na noite anterior, todos viram sua felicidade. Ele, que era um garoto contido, resolveu sair. Quando saiu, percebeu que o problema não era a injustiça da vida, como ele tantas vezes profetizou.
Seu tio não era como os outros. Apesar da diferença de idade, parecia que suas mentes estavam conectadas de uma forma peculiar aos jovens. Eles saíam juntos, também. E compartilhavam amizades, sentimentos e filosofias. O menino sempre fazia o tio sorrir. E na maioria das vezes os motivos eram banais. O tio gostava do comportamento do sobrinho, era só isso. Descontraído, o menino se comportava como a criança que já não era, mas tinha a malícia dos adultos quando queria parecer forte. O tio exercia no menino uma espécie de fascínio velado. Embora não conseguisse compreender a profundidade de muito do que era dito por ele, o achava sempre muito inteligente, perspicaz e sensato em suas colocações.
A única coisa que ele queria era sentir-se vivo. Ele estava sim desgastado, exausto. Mas estava vivo. Tudo o que ele queria era alguém que compartilhasse com ele suas vontades e fizesse delas as próprias vontades. E eram vontades tão naturais que ele não entendia como algo tão simples podia ser tão complicado.