Ele era inteligente, não restava dúvida. Mas tinha também um defeito: era incapaz de detectar as próprias imperfeições. Seguia todo o manual do bom comportamento na teoria, analisando-se mais do que é natural alguém fazê-lo, pelo puro prazer do espetáculo. Frases de efeito, ele as adorava. É certo que ele acreditava escrever muito bem, aliás, seria difícil descobrir algo em que ele acreditasse ter limitações. Mas as frases vazias de sentido mostravam o quanto ele tentava aparentar algo que não era. Contradições mil, talvez fosse preciso reler para tentar entender afinal qual era a pretensão. Mas não havia paciência para isso.Obviamente, os que não enxergavam todas as qualidades que ele certamente possuía estariam comentendo o pecado da inveja. Não era possível que alguém questionasse nenhuma de suas atitudes, embora, é claro, ele também fosse uma pessoa que acreditasse no diálogo, e que não queria impor sua opinião.
Muitos tentaram conversar com ele, fazê-lo perceber o que estava acontecendo ao seu redor. Mas ninguém o entendia, e ele sempre estava mal. Há pessoas a quem o sofrimento faz mais bem que mal. Ele era uma dessas pessoas. Gostava de chamar atenção, da maneira que fosse. Acabava tendo atitudes que seu sobrinho pequeno não teria, mas ele jamais enxergaria isso.
Ele saiu de casa, acreditando estar pronto para a vida. Mas a vida era cruel demais. As pessoas enxergavam defeitos umas nas outras, e ele não os tinha, por isso às vezes o interpretavam como arrogante. Ele conheceu alguém que acreditou na sua inteligência inicial e na carência demonstrada pelo sofrimento opcional, e se envolveu.
Dois meses depois, ela estava esgotada. Mesmo que ele não a sugasse, não cobrasse mais do que ela era capaz de dar e não fosse demasiado insistente, ela acabou tendo a impressão de que ele era assim, e preferiu romper antes que enlouquecesse. Ele gentilmente aceitou, embora todos os seus amigos fossem ficar sabendo de como ele havia terminado o relacionamento com uma garota que não dava a mínima para os sentimentos dele, que tanto a amava e se dedicava a ela.
Em seu emprego, ele sempre fazia questão de mostrar para sua chefe o quão ela era debilitada para o cargo que exercia, quando ele mesmo podia realizar as atividades dela. Surpreendentemente, foi demitido. Ele não conseguia entender como alguém demitiria um profissional como ele. E mais uma vez, entrou em depressão. A situação era cômoda. Alguns ainda se comoviam, e passavam a se dedicar a ele com exclusividade, até que a crise passasse e ele voltasse a ser exatamente como era. Outros, por sua vez, tentavam inutilmente retirar a venda de seus olhos. Mas ela não cederia nunca.
Ele tinha a mania, a quase extinta mania de escrever. E sua criatividade o fazia escrever sobre tudo, de todas as formas. E sempre se surpreendia com os resultados de sua pena arranhada no pergaminho que ele guardava com carinho. Sem que ele soubesse, as pessoas tinham acesso a seus devaneios, e se identificavam com eles. Ele sempre gostou muito dela, e ela o lia com freqüência.
Ele talvez fosse uma pessoa irritante. Para começar, não sabia seu nome. Cresceu então sem saber de muita coisa. Não sabia o que gostava de comer, nem se gostava de comer. Não sabia o que queria da vida, não sabia como se sentia e nem se sentia alguma coisa.
Ele acordou feliz. Ainda um pouco bêbado da noite anterior, mas feliz. Nem a dor de cabeça e a ressaca o fariam perder seu bom humor. Finalmente tudo estava caminhando bem. Seu sorriso aberto fez com que algumas pessoas o estranhassem. Mas ele definitivamente não estava nem aí. Na noite anterior, todos viram sua felicidade. Ele, que era um garoto contido, resolveu sair. Quando saiu, percebeu que o problema não era a injustiça da vida, como ele tantas vezes profetizou.
Seu tio não era como os outros. Apesar da diferença de idade, parecia que suas mentes estavam conectadas de uma forma peculiar aos jovens. Eles saíam juntos, também. E compartilhavam amizades, sentimentos e filosofias. O menino sempre fazia o tio sorrir. E na maioria das vezes os motivos eram banais. O tio gostava do comportamento do sobrinho, era só isso. Descontraído, o menino se comportava como a criança que já não era, mas tinha a malícia dos adultos quando queria parecer forte. O tio exercia no menino uma espécie de fascínio velado. Embora não conseguisse compreender a profundidade de muito do que era dito por ele, o achava sempre muito inteligente, perspicaz e sensato em suas colocações.
A única coisa que ele queria era sentir-se vivo. Ele estava sim desgastado, exausto. Mas estava vivo. Tudo o que ele queria era alguém que compartilhasse com ele suas vontades e fizesse delas as próprias vontades. E eram vontades tão naturais que ele não entendia como algo tão simples podia ser tão complicado.
Tenho amigos virtuais. Amigos. Com todo o peso que essa palavra possa ter. Não, eles não são psicopatas, não têm 10 anos e nem são frutos da minha imaginação. Mas eu não quero que você acredite nisso. Eu não sei se acreditaria se não tivesse essa experiência. Agora, se você se considera uma pessoa de “mente aberta”, você deveria achar isso tão normal quanto sentar num barzinho para tomar umas cervejas.