domingo, 12 de abril de 2009

O pato

Feliz Páscoa a todos!

Minha páscoa foi tranquila (sem trema) em São João, o que, diga-se de passagem, não me surpreendeu. Taí um destino que quem deseja paz (muuuita paz) de espírito deveria pensar: São João Nepomuceno - MG. Para quem gosta de natureza (!), pasto, roça, tranquilidade, ruas de paralelepípedo e afins, é uma boa pedida. Nesses lugares a gente presencia coisas que jamais pensaríamos em ver, é curioso. Acabei vendo um pato e um cachorro brigando. Sim, um pato! (deve ser fruto da minha imaginação de Bobby¹).

Para meus ávidos (!) leitores, segue a postagem de sábado que fiquei devendo.

"... Quem esqueceu não chora, quem chora ainda lembra. Quando se esquece rasga, não se rabisca a agenda ..."

Cleiton e Camargo. Agenda Rabiscada.

Timidez é um problema sério. Principalmente quando se é extrovertido. Há pessoas que não sabem diferenciar. Sou extrovertido, sim. Mas sou tímido. Ponto. Entendeu?
Sabe aquelas pessoas que você reencontra depois de séculos, mas que por n motivos não tem mais nada a ver com a sua vida? Pois é. Situação chata. Cinco minutos de conversa esgotam qualquer assunto que se possa vir a ter para botar em dia. Ok.
Daí vem alguém querendo forçar um diálogo inexistente. Legal, né? Não há nada pior. E depois você é que é problemático, que não conversa com ninguém (embora seja tão extrovertido). Naquele momento aquela pessoa se transforma num mundo de importância. Naturalidade. Tem gente que não conhece bem essa palavra.
Minha agenda está mais que rasgada. Triturei, junto com as poucas lembranças. Por falar nisso, trocadilhos à parte, perdi minha agenda. ¬¬. Custei a me acostumar com uma e agora perdi. A propósito, não se assustem. Sou tímido, mas chegando direitinho e sabendo ser natural, conduzo bem um papo. Afinal, sou extrovertido pra caramba!

Para o domingo, deixarei apenas a letra de uma música que fala por mim. Salve Renato Russo! Vocês já devem estar cansados de me ler.

"Tenho andado distraído
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso
Só que agora é diferente
Estou tão tranquilo
E tão contente...

Quantas chances desperdicei
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém

Me fiz em mil pedaços
Pra você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira

Mas não sou mais
Tão criança
A ponto de saber tudo...

Já não me preocupo
Se eu não sei por que
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê

E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu vejo
O mesmo que você...

Tão correto e tão bonito
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos
Sei que às vezes uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?

Me disseram que você
Estava chorando
E foi então que eu percebi
Como lhe quero tanto...

Já não me preocupo
Se eu não sei por que
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê

E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu quero
O mesmo que você..."

Legião Urbana. Quase sem querer.
__________________
¹ Bobby é o protagonista do desenho "O Fantástico Mundo de Bobby", conhecido por ter a mente (bastante)³ fértil.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Parênteses

"... acreditei nessa conversa mole, pensei que o mundo ia se acabar, e fui tratando de me despedir, e sem demora fui tratando de aproveitar..."

CALCANHOTO, Adriana. E o mundo não se acabou.

Antes de mais nada, desculpem. Abandonei por completo esse blog por um milhão de motivos. O mundo ia acabar e eu tinha muita coisa pra fazer. Mas ele não acabou, não é mesmo? Então voltemos.

Os "Meus Monólogos" saíram de cartaz. Agora, você "pode me chamar de Peter Pan". Os textos pseudopoéticos não perderão a vez (afinal, preciso de um lugar para extravasar minha criatividade carente).

Porém, agora atualizarei o blog diariamente (!) com as angústias de um garoto que não queria crescer. Afinal, a Terra do Nunca era sempre muito mais sedutora.

Ah, feriado, estou viajando (rumo a São João Nepomuceno - sim, lá tem vida out Carnaval). As atualizações diárias começarão no domingo (ou na segunda).

Beijos, meus leitores (se é que vocês existem).

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Diálogos mudos

Prestes a ir embora de casa, ele decidiu parar e fazer compras. Não gastaria muito dinheiro, seria mais uma terapia à base de chocolates e alguma coisa que o distraísse, fazendo o tempo passar mais depressa. Sacolas nas mãos, ele partiria.
Antes, porém, ele teria que passar mais quarenta demorados minutos sentado no ponto de ônibus. No céu, as nuvens diziam que choveria a qualquer momento. Ao redor, o vazio da solidão. Mas isso não o incomodava, ele até gostava de se sentir sozinho. Entretanto, pouco a pouco surgiram aqueles que o acompanhariam na viagem de volta à casa. Ele pensou por um momento o quão estranho era dividir o mesmo veículo, partindo para o mesmo destino, com tanta gente que talvez ele nunca mais visse na vida. E decidiu parar com os devaneios.
Na verdade, ele decidiu apenas tentar não divagar mais. Mas um segundo depois já estava analisando seus companheiros de viagem. Havia uma senhora, por volta de seus cinqüenta anos. Ele não entendia o motivo de ela estar esperando o ônibus. Com certeza, poderia pagar e partir de táxi, e ele não cogitava a hipótese da senhorinha viajar de ônibus por puro prazer.
Uma conhecida chegou e o distraiu. Trocaram algumas palavras. Ela não parecia o tipo de garota que freqüentava shoppings centers. Se bem, pensou ele, que o xadrez estava na moda. E ninguém resiste a um bom McDonalds. A terceira menina, que chegaria pouco depois, era a personagem mais intrigante daquele ponto de ônibus. Indescritível. Peruca roxa, camisa de retalhos, uma luva verde ocupando todo o braço, provavelmente feita de uma roupa velha. Calça surrada, grudada, com botões gigantes. Num pé, uma sandália rasteirinha. No outro, um sapato com no mínimo 10cm de salto. Meias daquelas coloridas, listradas. No pescoço, um cachecol feito de um saco de cimento. Sem falar no adereço mais ousado: uma chapa de radiografia da coluna de alguém estava pendurada em suas costas, como uma espécie de capa.
E ela não parecia louca. Era, aliás, muito bonita. Obviamente, a senhorinha a olhou torto. A conhecida parecia estar se divertindo com ela de alguma forma. E ele a achou interessante, até mesmo atraente. Repentinamente, outra moça chegou ao ponto, falando alto no celular e fumando com espalhafato. A menina da peruca gentilmente forrou o banco, que estava molhado, com uma sacola plástica, e o ofereceu para a moça do celular, que num primeiro momento recusou, mas logo depois sentou para continuar conversando ao telefone.
Quando ela finalmente desligou o aparelho, duas amigas chegaram, tão eufóricas quanto ela. Conversaram alto, falaram sobre festas, sentaram no colo uma da outra, trocaram beijos e riram muito. Ele achou uma delas muito interessante. Talvez fosse mais atraente se fosse mais discreta, mas não perdia o encanto por ser "extrovertida".
A menina da peruca acabou cedendo lugar para as três amigas e indo sentar próxima à conhecida dele, que acabou puxando assunto. A senhorinha permanecia em pé, próxima a ele. E ele agiu com a perícia que sabia ter. Aproveitou cada chance para trocar olhares com aquela que tinha despertado interesse nele. E ela retribuiu os olhares. Depois de muito tempo, o ônibus finalmente chegou. Ele se acomodou num dos primeiros bancos, perdendo o contato visual com a musa. O ônibus partiu e eles desceram no mesmo ponto. Acontece que há pessoas a quem os olhares parecem satisfazer. Ele seguiu seu caminho, e ela, o dela, e eles nunca mais se viram.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

É sempre uma mentira

Ele era mais um iludido com a vida. Contaram pra ele, vejam só, que se podia confiar nas pessoas. E que ele teria amigos, e seria feliz. Que bastava que ele estudasse, teria um futuro digno. Disseram que o amor chega pra todo mundo. Que se ele fosse uma pessoa agradável e cativante, as coisas seriam mais fáceis... Chegaram ao cúmulo de mencionar que ele deveria tratar as pessoas como gostaria de ser tratado. Pois bem.
Mais de uma vez na vida, ele se decepcionou. Porque as pessoas nos decepcionam, é natural. Mas isso não tinham contado pra ele. E ele se decepcionou mais uma vez, com as mesmas pessoas. E aí, é claro, ele começou a se chatear. Mas ele não podia, isso seria não aceitar com naturalidade o que a vida proporciona como aprendizado. Cabeça erguida.
Ele não era feliz. Não dentro do que ele considerava felicidade, e o que é esse sentimento senão aquilo que nós pensamos dele? Ele queria ser livre, poder agir como quisesse sem ser julgado. Mas as regras da vida mais uma vez vinham ensiná-lo que ele não podia fazer assim. Amigos? Depende... Ele tinha, de fato, alguns. Mas não existia equilíbrio. Ele gostava mais de alguns do que estes gostavam dele. Com outros, sentia que era o contrário. Ele só queria um amigo ideal, uma pessoa que gostasse tanto dele quanto ele dela. Afinal, disseram pra ele que ele teria amigos. Amigos, no plural. E ele só queria um.
Pra esquecer disso tudo, ele se dedicou aos estudos. E estudou muito. Era uma promessa brilhante, que ficaria mais uma vez decepcionada quando percebesse que estudar, às vezes, não é suficiente. Era preciso definir os sonhos, as metas, e só então começar a pensar em como realizá-las. E o sonho dele não era aquele.
Quanto ao amor... Ele nem gostava de pensar... Alma gêmea? Uma piada, de muito mau gosto. Ele só queria se sentir amado, se sentir protegido, mas até para isso tinham regras. E ele, que não parecia se encaixar muito bem aos padrões que a vida impunha, se desiludia cada vez mais. E se fechou, sem perceber. Talvez devesse partir dele a iniciativa de achar seu amor. Mas tinham dito que o amor chegava para todos, e ele se achou no direito de esperar.
E ele era agradável e cativante, não havia pessoa que discordasse. Mas as coisas estavam cada vez mais difíceis, outra vez, ao contrário do que ele ouvira. Por ser agradável, acabava sendo subestimado, não recebia a atenção que queria ou que por vezes necessitava. E por ser cativante, sempre julgavam que estava tudo bem. Mas eles não sabiam de nada.
Ele, ao contrário, se preocupava com os outros à sua volta. Assim era, aliás, a forma como ele gostaria de ser tratado. Mas era mal interpretado. Quando tivesse um filho, ele pensava, diria para ele que as pessoas não são confiáveis, nenhuma delas. Que provavelmente não teria um único amigo verdadeiro. Que dificilmente seria feliz ou teria um futuro que o fizesse realizado. Diria que o amor verdadeiro é uma lenda. Ele diria que não importaria a maneira como se comportasse, as coisas não seriam fáceis. E que ele não deveria esperar retorno de nada que fizesse. Talvez o menino chorasse, talvez fizesse escândalo. Mas, ao menos, quando crescesse, não se sentiria enganado pela vida.

domingo, 28 de setembro de 2008

Cegueira por opção

Ele era inteligente, não restava dúvida. Mas tinha também um defeito: era incapaz de detectar as próprias imperfeições. Seguia todo o manual do bom comportamento na teoria, analisando-se mais do que é natural alguém fazê-lo, pelo puro prazer do espetáculo. Frases de efeito, ele as adorava. É certo que ele acreditava escrever muito bem, aliás, seria difícil descobrir algo em que ele acreditasse ter limitações. Mas as frases vazias de sentido mostravam o quanto ele tentava aparentar algo que não era. Contradições mil, talvez fosse preciso reler para tentar entender afinal qual era a pretensão. Mas não havia paciência para isso.
Obviamente, os que não enxergavam todas as qualidades que ele certamente possuía estariam comentendo o pecado da inveja. Não era possível que alguém questionasse nenhuma de suas atitudes, embora, é claro, ele também fosse uma pessoa que acreditasse no diálogo, e que não queria impor sua opinião.
Muitos tentaram conversar com ele, fazê-lo perceber o que estava acontecendo ao seu redor. Mas ninguém o entendia, e ele sempre estava mal. Há pessoas a quem o sofrimento faz mais bem que mal. Ele era uma dessas pessoas. Gostava de chamar atenção, da maneira que fosse. Acabava tendo atitudes que seu sobrinho pequeno não teria, mas ele jamais enxergaria isso.
Ele saiu de casa, acreditando estar pronto para a vida. Mas a vida era cruel demais. As pessoas enxergavam defeitos umas nas outras, e ele não os tinha, por isso às vezes o interpretavam como arrogante. Ele conheceu alguém que acreditou na sua inteligência inicial e na carência demonstrada pelo sofrimento opcional, e se envolveu.
Dois meses depois, ela estava esgotada. Mesmo que ele não a sugasse, não cobrasse mais do que ela era capaz de dar e não fosse demasiado insistente, ela acabou tendo a impressão de que ele era assim, e preferiu romper antes que enlouquecesse. Ele gentilmente aceitou, embora todos os seus amigos fossem ficar sabendo de como ele havia terminado o relacionamento com uma garota que não dava a mínima para os sentimentos dele, que tanto a amava e se dedicava a ela.
Em seu emprego, ele sempre fazia questão de mostrar para sua chefe o quão ela era debilitada para o cargo que exercia, quando ele mesmo podia realizar as atividades dela. Surpreendentemente, foi demitido. Ele não conseguia entender como alguém demitiria um profissional como ele. E mais uma vez, entrou em depressão. A situação era cômoda. Alguns ainda se comoviam, e passavam a se dedicar a ele com exclusividade, até que a crise passasse e ele voltasse a ser exatamente como era. Outros, por sua vez, tentavam inutilmente retirar a venda de seus olhos. Mas ela não cederia nunca.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Aquela-que-pensava-que-sabia

Ele tinha a mania, a quase extinta mania de escrever. E sua criatividade o fazia escrever sobre tudo, de todas as formas. E sempre se surpreendia com os resultados de sua pena arranhada no pergaminho que ele guardava com carinho. Sem que ele soubesse, as pessoas tinham acesso a seus devaneios, e se identificavam com eles. Ele sempre gostou muito dela, e ela o lia com freqüência.
Depois de alguns textos, ela acreditou tê-lo desvendado. Mal sabia ela que não passara nem perto. Ele tinha seus truques, sim. Truques que gostava de preservar. Talvez a forma de rabiscar, que lhe era peculiar e da qual não abria mão. O fato é que os leitores ávidos tentavam abordá-lo, descobri-lo, e ele mantinha sempre a fórmula da simplicidade.
Ela não acreditava que toda aquela emoção poderia ser advinda apenas da imaginação, e de fato não vinha. Contudo, julgava ele, as experiências vividas não precisavam ser meticulosamente traduzidas uma a uma, em cada texto, em particular.
E nem tudo era mesmo real. Mas enfim, havia quem não acreditasse. Nem mesmo ele saberia dizer com eficiência quais teriam sido suas inspirações durante os longos metros de pergaminho que, desdobrados, invadiam seu quarto. Talvez ele se decifrasse um pouco a cada texto. E se divertia também. Mas embora nem mesmo ele soubesse precisar como surgia sua obra, parecia ter gente que sabia fazê-lo com perspicácia.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Aquele-que-não-sabia-de-nada

Ele talvez fosse uma pessoa irritante. Para começar, não sabia seu nome. Cresceu então sem saber de muita coisa. Não sabia o que gostava de comer, nem se gostava de comer. Não sabia o que queria da vida, não sabia como se sentia e nem se sentia alguma coisa.
Ele também nunca soube se era relevante no mundo, e também não parecia fazer questão de saber. Ele simplesmente não buscava conclusões. Sua vida tomava um curso que ele não sabia nem queria definir. Ele vivia por viver, e deixava-se viver assim.
Seu envolvimento com as pessoas era sempre um mistério, ele nunca sabia o que sentia por elas. Quando eram amigos, nunca sabia a intensidade daquele sentimento. Quando amantes, não sabia se estava apaixonado. Ele tentava não se incomodar com isso tudo, e parecia que também não sabia se incomodar.
O fato é que essa incerteza contínua às vezes o irritava. Mas para variar ele simplesmente não sabia como modificar aquela situação. E por comodismo, aprendeu a lidar com a dúvida. Ele gostava quando tentavam mostrá-lo que ele sabia alguma coisa. Mas ele sabia não saber.
Em toda sua dúvida, porém, ele tinha certeza que não saber das coisas o fazia menos preocupado com tudo. Como ele não saberia lidar com qualquer situação, para ele era fácil não ter domínio sobre ela. Um dia, porém, ele acordou achando que sabia. Ele só não conseguia identificar o quê.